O <i>sound bite</i>

Manuel Gouveia

O PS, utilizando o Governo, a maioria na CM Lisboa e a administração da Carris, montou um triste espectáculo a 21 de Novembro. Fez soar que transferia a Carris para a gestão da Câmara Municipal, mas nem a transferiu nem é claro quando o vai fazer. Fez soar que ia ser assinado um «Memorando de Entendimento», mas recusou o acesso ao texto, negando esse acesso até aos vereadores da própria Câmara, expondo a sua própria convicção que esse conhecimento estragaria o espectáculo. Fez soar, através do presidente da Câmara, um conjunto de medidas para a Carris, que não estão discutidas nem aprovadas em lado nenhum. Apresentou um modelo de financiamento demagógico e insustentável, mas que soa bem. Como o PCP já denunciou, é um modelo destinado a «repetir os erros que foram cometidos num passado recente só para poder permitir umas flores aos autarcas ou aos ministros do presente, sempre à custa dos trabalhadores e utentes do futuro próximo», recordando como os sucessivos governos criaram a dívida das empresas públicas de transporte.

O PS utilizou a Carris para a pré-campanha autárquica para a cidade de Lisboa. E é pena. Porque o sentido das propostas apresentadas até é positivo: mais oferta, menores custos para os utentes, mais trabalhadores. Mas no meio de tanto sound bite perde-se a possibilidade de uma discussão séria. Alargar a gratuitidade dos transportes para os 12 anos soa bem, mas só para a Carris? Isso não faz sentido. Mas se é para o Metro e para a CP também, que sentido tem esse apoio estar restrito à cidade? Um passe mais barato para os reformados soa ainda melhor. Aliás, o PCP acaba de ver uma proposta sua nesse sentido ser chumbada na Assembleia da República por PS/PSD/CDS. E por que agora e só para a Carris e só para Lisboa? Mais 120 trabalhadores também soa bem, e corresponde a uma necessidade operacional imperiosa. Mas ainda não entraram os 30 maquinistas que António Costa prometeu irem entrar de «imediato» como tão bem soou em Março.

Quando o objectivo é o sound bite, a resolução dos problemas dos trabalhadores e das populações desce a mero pretexto. Estamos na demagogia.

 



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